Pintura re-inventada
A paisagem desfila continuamente na janela. Com a testa encostada ao vidro vejo montes e vales, planícies e arvores que se sucedem e alternam, como um corridinho de um baile qualquer, o folclore da primavera deslocada. Os olhos semi-serrados adivinham um Sol pálido que me vai ferir a vista assim que nascer, ao longe, num horizonte próximo no tempo. Do lado de fora da janela está esse enorme vazio que é a paisagem, que desfila, como uma imagem turva, um estilo de pintura re-inventado onde as pestanas varem todas as pinceladas sempre no mesmo sentido. Olho lá para fora e vejo o vazio cá dentro, o espelho mágico que leva no presente o espaço vazio desta carruagem, a primeira do primeiro comboio. Porque os últimos são sempre os primeiros e o vazio nesses, é sempre o mesmo.

Olho lá para fora e vejo reflectido o vazio de dentro, espelhado no movimento continuo do exterior vejo o estático do espaço que me rodeia, o espaço vazio nos acentos laranja, cadeiras vazias que a madrugada não tirou da cama quando me arrancou a mim do sono.

Olho lá para fora e vejo reflectido o vazio de dentro, espelhado no movimento continuo do exterior vejo o estático do espaço que me rodeia, o espaço vazio nos acentos laranja, cadeiras vazias que a madrugada não tirou da cama quando me arrancou a mim do sono.
