Thursday, March 31, 2005

Pintura re-inventada

A paisagem desfila continuamente na janela. Com a testa encostada ao vidro vejo montes e vales, planícies e arvores que se sucedem e alternam, como um corridinho de um baile qualquer, o folclore da primavera deslocada. Os olhos semi-serrados adivinham um Sol pálido que me vai ferir a vista assim que nascer, ao longe, num horizonte próximo no tempo. Do lado de fora da janela está esse enorme vazio que é a paisagem, que desfila, como uma imagem turva, um estilo de pintura re-inventado onde as pestanas varem todas as pinceladas sempre no mesmo sentido. Olho lá para fora e vejo o vazio cá dentro, o espelho mágico que leva no presente o espaço vazio desta carruagem, a primeira do primeiro comboio. Porque os últimos são sempre os primeiros e o vazio nesses, é sempre o mesmo.

Olho lá para fora e vejo reflectido o vazio de dentro, espelhado no movimento continuo do exterior vejo o estático do espaço que me rodeia, o espaço vazio nos acentos laranja, cadeiras vazias que a madrugada não tirou da cama quando me arrancou a mim do sono.

Thursday, March 24, 2005

Tasca

Se não tivesse parado naquela tasca pequena não teria comido a sandes de torresmos, mas teria apanhado o regional e chegado a horas decentes para ter tempo de vir a casa almoçar. Teria apanhado antes o Intercidades e não teria visto a miséria a ir de férias e a estudantina a cabular. O magála teria passado despercebido aos meus olhos e a carruagem-bar não estaria tão cheia de fumo e de conversas de vendedores itinerantes.
Se não tivesse parado naquela tasca o meu futuro não teria sido adiado, a inevitabilidade chegaria a horas a casa e o almoço não me teria saído tão caro.
Hoje o saco está mais leve, o dia correu-me bem, a manhã correu-me bem…
Deixei a cidade para trás, a cidade desgastada e decadente, envelhecida pela idade, suja.
Se não tivesse parado naquela tasca teria arranjado um lugar à janela.

Tuesday, March 22, 2005

Mochila azul

Deixei-me ficar quieto, como se a escolha dos lugares vazios fosse tão aleatória que só mesmo à minha frente é que eles se poderiam sentar, e ainda há 10 minutos esta carruagem estava cheia.
O freio fez um barulho estridente que não me deixava ouvir a conversa mas adivinhava-se nas expressões dela o que ele lhe estava a dizer.
A presença deles incomodou-me.
Ele continuava a insulta-la e ela a calar-se, a angústia transpirava-lhe dos olhos com medo e os soluços vomitavam envergonhados da boca pequena, e ele continuava.
“A culpa é tua, és sempre a mesma merda, fazem de ti o que querem”.
Cruzei os olhos com ela e pisquei-lhe o olho. Ela parou de soluçar, como se o enchurrilho de ralhetes tivesse parado de repente. Descruzei a perna já dormente e sem querer toquei-lhe no pé, murmurei um desculpe que não teve resposta, mas que foi o suficiente para ele se calar e desviar as atenções para mim.
Fixei-o, grave e agudo.
A voz gravada do intercomunicador anunciou a próxima paragem, a minha, a penúltima deste ramal.
Levantei-me e saí para a plataforma. Coloquei o saco ao tira-colo e acendi um cigarro. Enquanto guardava o isqueiro olhei de relance para dentro da carruagem que se afastava e vi-a a olhar para mim. Pisquei-lhe o olho outra vez e ela acenou com a tira da mochila azul, e sorriu.
Quanto vale o sorriso de uma criança?

Observações Pendulares

Entro com o frio da plataforma nas mãos e deixo as portas fecharem-se num suspiro seco. O ar traz-me a vergonha dos olhares que me lambem a roupa amarrotada e deixo deslizar o saco pesado do ombro para a mão e da mão para o chão, sinto os pés inchados… Sento-me de costas para o sentido da marcha e deixo-me levar. Afasta-se de mim a cidade... Nos olhos pesados vence o sono que o suburbano embala e o meu corpo cansado adormece... Afasto-me da realidade. Sou um pêndulo diário, um pendura na vida que não pedi, na vida que tenho.
Adormeço e sou Invisível (obrigado pelo template).